A França ainda não perdeu o posto de referência gastronômica mundial, apesar da Espanha de Ferran Adriá. A influência da culinária italiana trazida por Catarina de Médici ao país em 1533, seria infrutífera se o cortejo de cozinheiros que com ela veio não se deparasse com uma terra rica. Ao longo de seus 550 mil metros quadrados, a França apresenta excelência e diversidade em matérias primas, aliadas ao apoio governamental ao pequeno produtor e ao talento dos chefs locais.
E a Normandia é uma das regiões que mais contribui para todo esse sucesso. Localizada ao norte do país, é assim chamada após a ocupação dos vikings ou normandos (‘povos do norte’), por volta de 911. Dividida em Alta e Baixa Normandia, a região apresenta uma rica paisagem natural, que contrasta o verde intenso dos seus campos com o azul do mar do Canal da Mancha, que banha seu litoral - na cidade de Etrat, esse litoral é entrecortado por belíssimas falésias, compondo uma das paisagens mais difundidas da região. Outra imagem bastante divulgada é a do Monte St. Michel, que fica numa pequena ilha rochosa localizada no departamento de La Manche. No alto desse monte existe a Abadia de St. Michel, que de tão encantadora, é conhecida como A Maravilha.
Além de deslumbrante, a região é também historicamente célebre: na cidade de Rouen Joanna D’ Arc foi capturada e executada, em 1431. Há bem menos tempo, no dia 6 de junho de 1944, tropas americanas desembarcaram nas praias localizadas no noroeste do território para lutar contra o exército nazista, no Dia D.
Tempos mais amenos, hoje a região fatura 3,9 bilhões de Euros com turismo e ostenta um patrimônio gastronômico de dar inveja ao resto do mundo. Quem vai à Normandia não pode partir sem saborear seu Camembert ou se deliciar com sua produção de sidra e calvados produtos emblemáticos da região.
Para princípio de conversa, o queijo mais popular da França, o Camembert, não existiria se não existisse a Normandia ou pelo menos, não com o mesmo nome. Criado em 1791 por uma fazendeira da região chamada Marie Harel, na cidade de Camembert, conta a lenda que o queijo foi batizado quando um dos filhos de Marie, em 1855, presenteou Napoleão III com um pedaço dele, explicando que vinha do pequeno vilarejo de Camembert. O imperador gostou tanto da iguaria que a partir daquele momento a invenção ganhou o nome de sua cidade, ficando mais famosa que ela. Hoje, o vilarejo de Camembert ostenta um museu dedicado ao seu mais nobre invento e uma estátua em homenagem a Marie. Em toda a França, somente
o Camembert de Normandie possui uma Appelation d’Origine Contrôlée (AOC).
No entanto, a matériaprima mais abundante na região não é o leite da vaca normanda mas a maçã, que dá origem a diversas produções, dentre as quais suas bebidas típicas: sidra, calvados e o pommeau (uma espécie de Champagne regional feito a partir do mosto de sidra e calvados) todas com devidas AOC’s e que aliás, são perfeitos para serem consumidos com o camembert. Realmente, não poderiam ter achado melhor lugar para se desenvolver a região possui dez milhões de macieiras plantadas ! É maçã que não acaba mais: in natura, em compotas, em tortas, bolos, sucos, em doces, em casa, nas ruas, em mercados, nas lojas ... Em época de colheita, elas são oferecidas também nos restaurantes, nas Entradas, acompanhando os pratos principais e fechando com chave de ouro nas sobremesas ... Basta colocar uma maçã no meio de qualquer receita, para poder batizar o prato de à la normande.
Laticínios e seus derivados, como o caramelo d’Isigny, um dos doces mais conhecidos da região, também são produtos fortes - leite, creme fresco, iogurte, manteiga (a d’Isigny é ideal para confecção de molhos) - e os queijos Pont l’Evêque, Livarot e Neufchâtel (todos AOC), representam 40% dos negócios agroalimentares.

Terra de criação animal, bovinos, suínos, ovinos, aves e coelhos compõem finamente pratos tradicionais. Bons exemplos são as Tripas à Caen, o Chouriço com purê de maçã, Escalope com creme de mostarda e o Pato Dieppoise. A carne do cordeiro é também bastante apreciada pela sua peculiar suculência, que é creditada ao pastos constantemente banhados pelas águas salgadas do mar.
E falando em mar ... a multiplicidade dos seus peixes e frutos compõe outra gama de especialidades muito bem representadas na clássica Marmite Dieppoise - uma sopa de diferentes peixes com vinho branco, mexilhões e vieiras (que na França se chamam Coquilles de St. Jacques). A região é responsável por 50 a 75% da produção nacional das vieiras ou coquilles e tamanha é a qualidade desse molusco, que recebeu em 2002 um Label Rouge - selo francês que atesta origem e excelência do produto.
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