Sobre o bicampeão
12/04/2012
Tenho uma coluna semanal (às quartas feiras) no IPAD do Globo. Essa quarta, com a proximidade do anuncio dos melhores restaurantes do mundo, em Londres, dia 23, resolvi falar do melhor do mundo de 2010 e 2011, o dinamarquês Noma. Reproduzo o texto abaixo.
Anualmente um juri de especialistas em gastronomia, do qual faço parte há cinco anos, elege os 100 melhores restaurantes do mundo, um mega concurso organizado pela revista inglesa The Restaurant. O resultado da versão 2012, será anunciado dia 23, em big festa em Londres. Ano passado, deu NOMA, restaurante em Copenhague que, aqui nos trópicos, poucos conheciam . A casa do chef René Redzepi foi um azarão. Curiosa que sou e com o handcap de ser uma das juradas do concurso, o que facilitou conseguir uma mesa disponível (a lista de espera, a essa altura do capeonato, era de um ano!), almocei no Noma numa tarde ensolarada e fria do outono dinamarquês.
É daquelas experiências que a gente não esquece, mesmo que queira. Como apagar da memória o potinho com dois saltitantes camarões vivos que gentilmente me foi oferecido pelo chef? Confira no video. Adianto que, por motivos de força maior, declinei do prato. Mas não consegui driblar os mexilhões de 35 anos, enorme, carnudos (e cascudos) que chegaram perfumados na caçarola de ferro.
O NOMA não se parece com nenhum dos muitos restaurantes que já desfrutei nesses quase quinze anos de critica de gastronomia do Globo. O couvert, por exemplo, era o vaso de flores que ornamentava a nossa mesa: escargots e ovas estavam estrategicamente colocadas entre as pétalas. E os musgos eram comestíveis, assim como os caules, todos empanados em massa levinha. Aprendi que ali, além de garfo, é preciso comer de óculos de grau. Fundamental.
Fritei ovo na mesa (com dimmer na mão); provei das vieiras desidratadas (que lembravam presunto de Parma), comi "marmore" de leite seco (que queimou meu céu da boca); fui apresentada ao escargot da Suécia (igualzinho a qualquer outro), me deliciei com a pele de pato frita (que não sabia do que se tratava), aprovei as alfaces grelhadas (que viraram purê na boca) e, intrigadíssima, explorei o vaso com terra e folhagens fiçosas que depositaram na minha frente. "Bom apetite" desejou-me o jovem á minha frente. Atônita, pedi instruções. " A terra é uma farofa de castanha torrada e caramelada", me disse sorrindo. "o que você deve fazer é colher os legumes do vaso como se estivesse em uma horta". Assim foi feito: colhi cenouras e rabanetes que explodiram na boca e espalharam um creme untoso e gostoso de iogurte com ervas inesquecível.
A florzinha é comestivel
De um momento não esquecerei jamais. Foi quando ganhei uma caixinha com um doce típico da Dinamarca: era a nossa boa e velha Nhá Benta, que há décadas a rede Kopenhagen de chocolates apresentou aos brasileiros.
E voltei para o hotel certa de que o "melhor restaurante do mundo" pode ser até o mais divertido, inusitado e original, mas, definitivamente, está longe de ser "o melhor restaurante do mundo".
Agora, é conferir no próximo dia 23 a lista dos novos bambas do pedaço.
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