Da água pro vinho
06/12/2010
A tecnologia de ponta, boas matérias-primas e uma nova geração de enólogos com experiência no exterior transformaram, nos últimos 20 anos, a qualidade do vinho produzido no Brasil. O cenário vitivinícola do país, entretanto, continua mudando, com o perdão do trocadilho, da água pro vinho.
Ocupando a 16º posição entre os produtores do mundo, o país conta com cerca de 1.200 vinícolas, o dobro das que existiam há uma década. Nos últimos anos, surgiram regiões produtoras muito além dos limites do Vale dos Vinhedos (RS).
Entre as novas apostas está a região da Campanha, próxima à fronteira com o Uruguai e que reúne oito municípios; a região Serras do Sudeste, em torno de Pinheiro Machado e Encruzilhada do Sul; Campos de Cima da Serra, em torno de Vacaria; e o inusitado Vale do São Francisco, nos estados da Bahia e Pernambuco, zona que fornece duas colheitas e meia por ano.
Os novos terroirs e a visível melhora na qualidade dos vinhos têm levado produtores e associações a buscarem na legislação o reconhecimento das particularidades de seu produto. Ao lado do Vale dos Vinhedos, a primeira região com indicação de procedência de vinhos no Brasil, conquistada em 2002, está Pinto Bandeira — antigo distrito de Bento Gonçalves e alçado em julho à condição de município —, que acaba de conseguir o seu selo de origem.
O selo de Indicação de Procedência não garante a qualidade, mas certifica a origem dos rótulos e se configura como uma estratégia que agrega valor à bebida. Outras áreas brasileiras também estão com indicações de procedência em trâmite, como Monte Belo do Sul, Flores da Cunha-Nova Pádua e o próprio Vale do S. Francisco.
Na trilha das novas regiões surgem, também, novos rótulos. O Sesmarias (em torno de R$ 250) é o tinto top da Fortaleza do Seival, projeto da Miolo Wine Group na Campanha Gaúcha. Sua comercialização foi feita no estilo dos vinhos de Bordeaux — en primeur, ou seja, com venda prévia do produto, antes de seu lançamento, na Expovinis, há alguns meses. Da mesma região saíram dois vinhos da recém-nascida vinícola Bellavista Estate Bueno, do locutor esportivo Galvão Bueno (em associação com o grupo Miolo). São eles o tinto Bueno Paralelo 31 (cerca de R$ 75) e o espumante Bueno Cuvée Prestige (em torno de R$ 59).
Mas a grande novidade deste ano, apresentada em outubro, foi a estreia do ice wine, o primeiro vinho do gelo brasileiro. Produzido em Santa Catarina, o ice wine verde-e-amarelo vem de vinhedos da fria região de São Joaquim, situados a 1.300 metros de altitude. Em 2009, as baixas temperaturas que caíram sobre a região atingiram, em junho, 7,5 graus negativos, o que propiciou a produção da bebida.
Os ice wines — também chamados eiswein, em alemão — são vinhos doces feitos a partir de cachos maduros que congelam no pé. Canadá, Áustria e Alemanha são produtores tradicionais da bebida. No Brasil, coube à Pericó, vinícola com menos de uma década de vida, apostar no desafio. O frio intenso congela a água no interior das uvas, o que concentra seus açúcares e sua acidez. O ice wine brasileiro é feito com a tinta Cabernet Sauvignon e custa caro: cerca de R$ 200.